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copo vazio

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Photo via Visualhunt

já é tarde

para dar corpo à raiva

sem que ninguém saiba

que a vida nunca guarde

aquilo que não há

dentro dum copo vazio

sujo

partido

breve horizonte ferido

sem lágrimas de sabujo

vénias a mais para compadrio

(…)

deixem-me ser eu e as minhas portas fechadas

as folhas e as memórias perdidas na noite

a lucidez linear das diagonais difusas

o valor incógnito da equação gelada e solúvel

o outono ímpar de outros silêncios tangíveis

a luz imperceptível no firmamento das cinzas quentes

enciclopédia maior de todas as escusas

ébrio de tanta sobriedade

actor sem palco nem bastidores

(…)

por mim não te fascines

toda uma sinfonia desafinada

ainda que imagines

uma abóbora cheia de nada.

gray friday

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Photo via Visual hunt

um copo de vinho

para encontrar o caminho

um copo de água

para esquecer a mágoa

um passo em falso

cada degrau é demais

levanta-te, ou um dia cais

a propósito

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Photo credit: Mark Dries via Visual hunt / CC BY-NC-ND

ainda não foi desta

que soltei a imaginação de outros dias

como a flor da giesta

que desponta nas primaveras frias

chego a casa

a cortina continua fechada

ser feliz não é nada

ser a lua e a madrugada

a estrela cadente na ponta da asa

flauta de cana

 

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Photo via Visual hunt

breve momento de memória triste

condição de ser e de existir a cada dia

e assim seria

o início embriagado dessa melodia

que nunca desiste

de ser cal e pó

30

idos todos os beijos

conquistadas as sombras

e as penumbras

perdidas todas as lágrimas que te lembras

resta o descanso breve

o vinho leve

e todos os outros desejos

inertes e sombrios

luminosos e frios

soma de tantos restos

silêncio de outros gestos

o ponto de partida nunca parte

as palavras não se guardam

não se dizem

não doem

o que conta é o número

efémero

finito ou infinito

não há zero nem nada

cicatriz marcada

em pedra de granito

é lá que todas as melodias ecoam

e a coragem sangra a sua dor

ao sol-pôr

conhecido de tantos dias iguais

banais

indeléveis

solúveis

numa maré constante

sem instante

neste dia

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Photo credit: HerLanieShip via Visual Hunt / CC BY-NC-ND

estes dias estão a acabar

para voltarem amanhã – ou depois

retratos de ser – ou estar

e em cada nova há sempre dois

¨

sentes a prisão a cada rotina

és menor que a sede eterna

cada frase tecida em surdina

ecoa nesta caverna

¨

mas para aumentar o contraste

apagas lentamente a memória

e pela sombra deixaste

sete linhas da tua história

¨

onde não há asas para voar

libertas as tuas presas

em cada abraço deixas ficar

as tuas derrotas e certezas

¨

consumível

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Photo via Visual Hunt

do outro lado apenas silêncio e emoção

aquilo que é o lema e a paixão

cá deste

nada mais que um vazio abissal

um mar sem sal

sempre neste

fugir do vento e das borboletas

encher de vazio as gavetas

(…)

podia acabar a noite e o abraço

podia vir também a raiva contida

o tremer das pernas a cada passo

só depois se saberia a razão de nada haver nesta vida