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Archive for Junho, 2011

disperso

fora tudo tão simples, como as cores, as preciosas gotas salgadas.

e então terias tempo de esquecer o medo e a diferença.

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isto

Esta velha angústia,

Esta angústia que trago há séculos em mim,

Transbordou da vasilha,

Em lágrimas, em grandes imaginações,

Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,

Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida

Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!

Se ao menos endoidecesse deveras!

Mas não: é este estar entre,

Este quase,

Este poder ser que…,

Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,

Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.

Estou doido a frio,

Estou lúcido e louco,

Estou alheio a tudo e igual a todos:

Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura

Porque não são sonhos

Estou assim…

Pobre velha casa da minha infância perdida!

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!

Que é do teu menino? Está maluco.

Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?

Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso

Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.

Era feiíssimo, era grotesco,

Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —

Júpiter, Jeová, a Humanidade —

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

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Escuro

Como se não houvesse poder para mudar os segundos. Gostar deste silêncio minado pelos insectos, sentir na pele as picadas e as palavras mudas. A estrela polar está em casa – a coruja pia no vale; há um caminho a trilhar.

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Eu-cal-ipto

nem tudo é evidente, se a clareza e partida da noite te trazem a fluidez morta da ignorância. Quando parece que o vento acalma, vem a entrega perene das vertigens sagradas.

A coragem é a incerteza da derrota.

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Fase


amo, mas não sei amar

morro, mas não sei morrer

tudo o que sei é dar

nada do que aprendo é receber

¨

onde há virtudes alheias, fecho os olhos

se houver princípios audazes, invento males menores

e quando as setas atravessam ameias, os barcos afundam nos escolhos

murcham as rosas e os lilazes, pois fico aqui se tu não fores

¨

esquecido quando for lembrado

apenas a um epitáfio pertence a tinta

dirás sempre que a vida não é um fado

por mais que ao menos nada sinta

¨

descoberto o breu

entregue a cor favorita

todos estes dias vazios, sou apenas eu

envolto em névoa quente e sombria escrita

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granulo

Ter a fé
Saber a novena
Mas daqui até
Será que vale a pena?

Não há vento que o leve
Mesmo que a barreira o pare
Toda uma vida breve
Se alonga para que o medo separe

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Uvas perdidas

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perdida a pouca paz

como se nada tivesse proveito

apenas esta sombra jaz

no sublime e pobre efeito

se houve algo que não disse

sustento que não ofereci

apresento a minha tolice

para me afastar de ti

estas palavras que se vão perdendo

velhas e inconsistentes

mostram tudo aquilo que fui sendo

baloiçando nas correntes

e do tanto que não sei

aprendo sem virtude

e de tudo aquilo que dei

é um oásis que ilude

baixo a cabeça

ergo a folha morta

guardo o que mereça

ficar para lá da porta

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Passivo

e quando abandonas toda uma quota de vontade, porque não pões o cinismo nublado como moeda de troca, o amanhã é apenas mais um ocaso primaveril, sem presença, sem audácia, sem doçura.

Mas as coisas tornam-se em algo difuso e intermitente, o que faz com que a noite seja o início da perseverança.

Não há ameias para ventos calmos.

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