Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Abril, 2013

Água

Pondero ser cinza
Espero a breve manhã de vento
Talvez termine a tempo
A obra acabada pela água
A semente e a brasa
Foi uma sede de míngua
Hora lesta e violeta
Na força do arco e da seta

Posted from WordPress for Android

Read Full Post »

Canto VII

image

nas batalhas que emergem
das diminutas dúvidas
as lanças caem
e os cavalos param
junto à margem
das vitórias de outras vidas
– mas as árvores também sangram

nem na nuvem negra
o sonho se some
outra noite na sombra
outro dia sem fome

Posted from WordPress for Android

Read Full Post »

Passível

em cada virar de página, há uma linha vazia

ou menos

se amanhã não houver outro dia

nem doces venenos

avançar devagar

olhar para trás e riscar os erros

cavar

e preencher os aterros

lá em cima há outra vertigem

sem olhar a lições

numa breve viagem

sem limonada nem limões

Read Full Post »

… flutuar

dunes

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

Read Full Post »

Less

wake me when the tomorrow

flies in to the sorrow

– in between:

a smile never seen

a tear never wept

(a sunbeam ever swept

my eyes

to the above grey skies)

Read Full Post »

pavement

o pequeno pássaro treme

não de frio

nada lhe é leve

nada lhe preenche o coração vazio

a formiga sozinha

não faz o caminho

tantas e tantas fazem a linha

só o escaravelho caminha sozinho

a papoila aguarda a primavera

para libertar o seu vivo vermelho

e a andorinha espera

encontrar o seu ninho velho

tudo morre

tudo se renova

e se a esperança não corre

cava a sua própria cova

a cada curva do caminho

há um futuro que não se adivinha

em cada ferida de espinho

há uma rosa que murcha sozinha

para saber o gosto da paixão selvagem

é preciso uma espada afiada

uma mão cheia de coragem

uma tela colorida sem nada

Read Full Post »

Passai

Sunset
Ela canta, pobre ceifeira 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Fernando Pessoa

Read Full Post »

Older Posts »