Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for 2 de Abril, 2014

Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade…
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços…
Eu procurei depois o amor e a vida
P’ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr’a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser…
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos […] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror…
Ah, mas cansei a dor dentro de mim…
E hoje tenho sono do meu ser…
Dormir, dormir, de dentro d’alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.

 

s.d.
Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. – 176.

Read Full Post »