Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Pessoa’

Sou isso, enfim

Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

– 124.

Read Full Post »

Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.
Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho inerte.
As tuas mãos são rolas presas.
Os teus lábios são rolas mudas.
(que aos meus olhos vêm arrulhar)
Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente.
E toda ranger de asas, como dos (…), a lagoa de eu te ver. Tu és toda alada, toda (…)
Chove, chove, chove…
Chove constantemente, gemedoramente (…)
Meu corpo treme-me a alma de frio… Não um frio que há no espaço, mas um frio que há em vir a chuva…
Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

 

 

Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990.

– 128.

“Fase decadentista”, segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986

Read Full Post »

clover

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro

Read Full Post »

Verso solto

de cabeça cheia
e coração vazio
perdi-me na colmeia
desfia-se o fio
nesse amanhã condicional
onde não há bastidores
dormem os guerreiros
e os poetas inteiros
que não têm seguidores
nem missa na catedral
– corpo presente
epístola aos sarracenos
oração ausente
sete dias pequenos -.

Posted from WordPress for Android

Read Full Post »

Cântaro

image

(…)
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a

liberdade,

Dêem-ma no púcaro velho de ao pé

do pote

Da casa do campo da minha velha

infância…

Eu bebia e ele chiava,

Eu era fresco e ele era fresco,

E como eu não tinha nada que me

ralasse, era livre.

Que é do púcaro e da inocência?

Que é de quem eu deveria ter

sido?

E salvo este desejo de liberdade e

de bem e de ar, que é de mim?

Álvaro de Campos, in “Poemas

(Inéditos)”

Posted from WordPress for Android

Read Full Post »

Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade…
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços…
Eu procurei depois o amor e a vida
P’ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr’a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser…
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos […] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror…
Ah, mas cansei a dor dentro de mim…
E hoje tenho sono do meu ser…
Dormir, dormir, de dentro d’alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.

 

s.d.
Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. – 176.

Read Full Post »

Ante

reza a história
reza o terço
rasga a memória
embala o berço
   e assim foram tantas as horas
   passadas na procura da fé que choras
escreve cartas
escreve odes
nunca partas
se ficar não podes
   a alma partiu um instante antes
   o corpo restou no resto do que ficou
grita uma raiva suave
cala o silêncio ferido
não há lágrima que lave
um sentimento esquecido

Posted from WordPress for Android

Read Full Post »

Older Posts »